A desancoragem das expectativas de inflação no país começou em abril, após o governo alterar as metas fiscais e prometer zerar o déficit fiscal somente a partir de 2025.
Desde então, a mediana das expectativas para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2024, 2025 e 2026 subiu significativamente. O futuro presidente do BC também afirmou que esse processo traz bastante incômodo para os diretores da autoridade monetária.
"Esse é um processo de desancoragem que já está há um tempo. Que já nos incomoda há bastante tempo", disse Galípolo.
Juros mais altos por mais tempo
Como consequência do processo de desancoragem das expectativas, as projeções para os juros também subiram significativamente nos últimos meses. Até abril, a previsão era de a Selic voltaria para um dígito já em 2025. O boletim Focus do BC, divulgado nesta segunda, entretanto, mostra que isso só deve ocorrer, no melhor dos cenários, em 2027.
A mediana das expectativas do mercado aponta que os juros, atualmente em 11,25% ao ano, subirão nos próximos meses até chegar a 13,25% ao ano em março e terminarão 2025 acima de 12,5% ao ano.
A piora da percepção dos agentes econômicos também foi afetada pela decisão do governo de anunciar um pacote que promete reduzir os gastos públicos em R$ 70 bilhões nos próximos dois anos em paralelo a tramitação de um projeto para isentar de Imposto de Renda (IR) pessoas com renda mensal de até R$ 5.000.
Para compensar a perda de arrecadação, estimada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em pelo menos R$ 35 bilhões, a ideia é tributar quem tem renda superior a R$ 50 mil por mês. Com isso, o imposto terá incidência para quem tem rendimentos que ultrapassam R$ 600 mil por ano.
Alta de até 1 ponto percentual da Selic
Em meio ao ambiente econômico conturbado, economistas, analistas e investidores passaram a apostar que os juros devem subir, pelo menos, 0,75 ponto percentual na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcado para 10 e 11 de dezembro. E já há quem aposte em um alta de 1 ponto percentual.
Com dólar em alta, com a inflação corrente pressionada e as expectativas para os próximos anos desancoradas, além do mercado de trabalho supreendendo, os membros do Copom estão pressionados a acelerar o ritmo de alta dos juros.
Como mostrou à EXAME, somente uma sinalização pública e clara do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de compromisso com o equilíbrio das contas públicas e com o corte de gastos teria condições de diminuir essas pressões.
Se nada ocorrer até a próxima semana, a tendência é de os juros em dois dígitos durante toda a gestão petista.