Causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi, a doença de Chagas é uma endemia em 21 países das Américas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que a infecção cause 12 mil mortes todos os anos pelo mundo. Para o tratamento, existe apenas um fármaco disponível capaz de melhorar os sintomas, mas que não elimina o protozoário.
Em um estudo publicado em 2022 na revista ACS Omega, o pesquisador compartilha seus achados — obtidos a partir de amostras do coral coletadas em São Sebastião, no litoral norte de São Paulo. "Nós extraímos seus compostos químicos e fomos isolando um por um, até chegar naquele que possui atividade contra o protozoário”, conta Tempone ao Instituto Butantan.
A doença de Chagas mata cerca de 12 mil pessoas ao ano em todo o mundo, segundo a OMS — Foto: Renato Rodrigues/Comunicação Butantan
O composto foi, então, testado em células e demonstrou seletividade para o parasita, matando apenas as células infectadas. Em colaboração com a Universidade de Oxford, na Inglaterra, a equipe brasileira trabalha agora para criar uma molécula em laboratório e eliminar a necessidade de extraí-la do coral.
“O grupo da Universidade de Oxford fez a síntese da substância e seus derivados, e já passamos de uma centena de derivados melhorados. A molécula natural circulava no sangue de animais por apenas três minutos; com as modificações, ela agora age por 21 horas”, explica o farmacêutico.
O pesquisador também conduz pesquisas terrestres. Em uma colaboração com a Universidade Federal do ABC, em São Paulo, descreveu uma molécula da planta brasileira canela-amarela (Nectandra barbellata) que eliminou o Trypanosoma cruzi em testes de laboratório. A descoberta foi divulgada em artigo publicado em 7 de outubro de 2023 na revista Science Direct.
A doença de Chagas é transmitida pelo barbeiro infectado com o Trypanosoma cruzi e costuma demorar para ser diagnosticada, com mais de 90% dos pacientes levando anos para descobrir a infecção. O tratamento funciona melhor no início da doença, já que em estágio avançado é difícil eliminar o parasita.
As sequelas mais graves incluem aumento do coração, insuficiência cardíaca e problemas digestivos. A fase inicial pode ser assintomática ou causar febre prolongada, dor de cabeça, fraqueza intensa e inchaço no rosto e nas pernas.
Tempone ressalta a importância de todos se preocuparem com agentes causadores de doenças tropicais — que, apesar de serem predominantes na América Latina e na África, podem se adaptar a outras regiões do mundo devido às mudanças climáticas e aos recordes de temperatura.